Amor Platônico




Não tem jeito, sou uma romântica incurável. Escrevi esse conto que fala de amor platônico, aquele amor impossível de acontecer, mas que todo mundo já sentiu alguma vez. Dedico a todos aqueles que curtem uma boa história romântica. Lá vai



                                           
                                                       Amor platônico


Você já amou de uma forma unilateral de maneira impar e singular? Não falo de amor não correspondido, pois nesse, o outro sabe dos seus sentimentos mas não retribui. Falo de um amor mais complexo, que só existe secretamente em você e que mais ninguém sabe, especialmente o ser amado. É o que chamam de amor platônico. Isso já aconteceu comigo, foi há muito tempo quando ainda usava calças curtas. Acho que foi a primeira vez que a flecha do cupido me acertou “estúpido cupido”.

Naquela tarde estava na casa de um dos meus amigos. Sentados no chão da sala matávamos o tempo jogando banco imobiliário. A porta estava escancarada e dava de frente para o muro. Um homem aproximou-se do muro e chamou pela mãe do meu amigo, nem reparei de quem se tratava, pois meus olhos só conseguiam ver outra coisa, era um par de expressivos olhos, olhos castanhos amendoados de uma garota, emoldurado por madeixas douradas e infinitamente lindos, eles me fitaram profundamente. O muro impedia que eu visse outra parte do seu rosto, mais ver os seus olhos foi o bastante para que a coisa acontecesse. Pessoas se movimentavam, falavam, cachorros latiam, objetos eram movidos, o vento soprava o mundo girava mas eu fiquei preso naquele olhar. Senti como se um fio desencapado encostasse na minha espinha fazendo-me estremecer todo por dentro, fazendo minha respiração parar e meu coração bater desesperadamente enlouquecido. Mas logo ela se foi. Foram tão poucos segundos, mas que para mim pareciam muito tempo.

- Quem era aquela garota? – não hesitei em perguntar ao meu amigo.

- Ela é a filha da dona da escola onde minha mãe trabalha. Chama-se… – e disse o nome dela.

Seu nome era lindo, fiquei perturbado, suspirei tentando recompor o senso e agir normalmente – como se eu pudesse. Aquele olhar preencheu todo o meu pensamento naquela tarde, naquela noite e na manhã seguinte e depois e depois… Eu a estava amando, mas tudo o que eu tinha dela era um nome e um olhar. Fui ficando insatisfeito, desapontado me senti fracassado um perdedor. Não, eu não poderia deixar que aquele par de olhos me atormentasse assim. Queria mais, ver mais, saber mais coisas daquela fascinante criatura, mas para isso eu teria que agir.

Motivado pela força da paixão fui impulsionado a fazer coisas que não pensei que faria. Comecei a sondar meu amigo fazendo-lhe perguntas que me levariam ao ponto que eu queria, me aproximei de sua mãe, pois ela era a pessoa que estava mais próxima da minha amada. Investiguei, fucei e os resultados foram surpreendentes. Sem levantar suspeitas, descobri sua idade, seu nome completo, onde morava, onde estudava, o trabalho do pai, da mãe vi que tinha dois irmãos mais novos. Fascinava-me ao ouvir falarem dela, quando contavam sobre suas histórias de bravuras e travessuras. Era perturbador como eu podia gostar tanto de uma pessoa que nem sabia que eu existia.

Passado algum tempo comecei a desconfiar de minha sanidade mental: estava eu realmente apaixonado ou apenas louco obcecado? Se bem que paixão e loucura andam lado a lado, mas eu me questionava se era um caso de internação. Com esforço descobri uma pequena parte de sua vida, mas ela era quase uma estranha, não a conhecia fisicamente só tinha visto seus olhos, disso eu sabia que eram lindos, mas e quanto ao resto do seu corpo? Em meus pensamentos a imaginava linda, mas… E se não fosse? E se ela não me agradasse tanto como eu queria? Se fosse feia? E se ela me achasse feio também? Se me odiasse ao invés de me amar? Pensei, pensei e descobri que era estupidez perder meu tempo com aquele amor idiota. – Vou evitar pensar nela, decidi. Quando viesse a sua imagem (quer dizer a imagens dos seus olhos) eu pensaria no novo gibi do Batman.

Essa foi uma das inúmeras estratégias que tentei. Mas maldita foi a hora em que me propus a ajudar o meu amigo. Sua mãe (como já havia dito, trabalhava em uma escola) pediu que arrumássemos alguns arquivos que ela havia trazido pra organizar em casa. Perdidos em meio a um milhão de fichas de alunos e ex- alunos a gente se divertia vendo as fotos 3×4 coladas no alto de cada ficha. Comentávamos e catalogávamos as caras e os nomes engraçados. E ali, em meio a um milhão de outras fichas, justo uma veio parar na minha mão, aquele inconfundível nome, aqueles inesquecíveis olhos castanhos, era a ficha da minha amada ou “ex- futura amada”. Conhecia bem aqueles olhos, mas através naquela foto estava sendo apresentado pela primeira vez a outra parte do seu rosto. Perturbadoramente, comecei a tremer. Pela primeira vez via seus lábios, seu nariz, suas orelhas, seu pescoço e todo seu cabelo, dava até pra ver a gola da sua blusa, que era rosa. Fiquei chocado e envergonhado comigo mesmo de ter chegado a pensar que ela poderia ser feia, pois ela era ainda mais linda do que eu poderia imaginar. – Ah essa não! Eu estava perdido de novo, todo o sentimento que obstinadamente sufocava a cada minuto ressurgira tal qual a ave Fênix ressurgiu das cinzas e dessa vez ainda mais arrebatador. Sem pensar duas vezes, meus dedos num movimento ágil e cuidadoso, desgrudou a foto do papel e a escondi na mão, a ficha misturei entre as outras. Cinicamente, simulei uma coceira nas costas e escondi a pequena foto no bolso. Meu amigo não notou nada, tentei apressar aquela arrumação, pois a foto no bolso de traz pulsava querendo que eu a olhasse outra vez.

Terminada a arrumação dei uma desculpa qualquer e fui correndo para casa. Tranquei-me no quarto e tirei a foto do bolso. Olhei-a meticulosamente, olhos, boca, nariz, orelhas. Em cada parte me detive por vários minutos. A beijei, a acariciei, pus colada em meu coração. Ao deitar a coloquei embaixo do meu travesseiro. Naquela noite Sonhei com ela, pude ver seu lindo rosto suas feições infantis tão delicadas. No sonho a gente corria pelo gramado verde do parque, sorriamos, eu a empurrava no balanço, seus cabelos dourados esvoaçavam com o vento, ela segurava firme em minha mão e eu a beijava escondido atrás de uma grande árvore. E assim foi durante todas as noites, religiosamente eu olhava para aquela foto antes de dormir.

Mas o tempo foi passando e nada acontecia, apesar de vez ou outra rondar por sua casa e sua escola como mosca de padaria, não conseguia vê-la, aquela garota era inatingível, nossos caminhos não se cruzavam, a não ser em meu mundo de sentimentos.

O tempo passou e eu perdi a foto, acho que deve ter caído da cama, e minha mãe varrido junto com o lixo da casa. Resolvi que, já que a tinha perdido, deveria deixar como estava. Talvez aquele fosse o fim do meu amor platônico que só existiu no meu coração.

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Um raio pode ser, mas uma cena pode se repetir de novo sim, e no mesmo lugar. Anos mais tarde, quando as minhas calças já não eram mais curtas, estava eu, na casa do mesmo amigo, na sala, agora mergulhado em apostilas de pré- vestibular. Quando ela surpreendentemente apareceu minha ex-amada vivinha da Silva em carne e osso. Estava acompanhada de seu pai. Nossos olhos se cruzaram pela segunda vez, meus olhos incrédulos demoraram alguns segundos pra assimilar aquela visão. Parecia que estava diante de uma Deusa mitológica, ali naquela simples sala. Meu coração balançou. Viajei com os olhos pelo seu rosto passando por seu corpo até seus pés, ela havia crescido tomado forma de mulher, tinha mudado um pouco os traços do seu rosto perdido a doçura infantil, mas ainda era bela. Só seus olhos: esses ainda eram os mesmos de anos atrás. Aos poucos fui tomado por um turbilhão de desvairados sentimentos. Uma voz dentro da minha cabeça gritava dizendo: – Seu idiota você está tendo uma segunda chance, ela está aí inteira na sua frente, fala com ela, diga que a conhece agarre-a, beije-a ela te pertence. Diga isso pra ela, diga que você a ama.

Mas uma segunda voz surgiu e essa dizia: – mostra pra ela que a idiota aqui é ela, mostra o que ela perdeu, que ela poderia ter sido a garota mais amada de todas, que ela nunca mais achará outro cara como você.

Balancei a cabeça para expulsar aquelas vozes que pareciam surgir diretamente do inferno. Ela não merecia, eu não merecia essa situação. Para aquela garota eu era um completo estranho. Achei melhor não dar ouvidos à nenhuma das vozes e deixar tudo como estava. Já havia me curado. Foi bom enquanto durou pra mim.

A garota olhou pra nós dois: eu e meu amigo, seu olhos me fitaram pensativos por alguns segundos e falou:

- Acho que já te vi em algum lugar.

Dei um sorriso torto e respondi: – Talvez num sonho.

Autora: Ana Carla Santos

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